Você pede a mesma fórmula de sempre, com a mesma dose, e desta vez o rótulo diz para tomar 2 cápsulas em vez de 1. Ou o contrário: o que antes vinha em 2 agora cabe em 1. Parece erro, mas na maioria das vezes é sinal de que a farmácia fez o que precisava fazer: ajustou a fórmula para que você continue recebendo exatamente a mesma quantidade do ativo. O que muda é o volume do pó, não a dose. Quando o número de cápsulas por dose muda, a farmácia deve avisar você na entrega, e o rótulo traz a nova forma de tomar.
A dose é em miligramas, a cápsula é em volume
A prescrição diz quanto de cada ativo você deve tomar, em miligramas. A cápsula, por outro lado, tem um espaço fixo, medido em mililitros. Entre uma coisa e outra está a densidade aparente do pó: quanto espaço um grama dele ocupa depois de acomodado. Um pó leve e fofo ocupa muito espaço; um pó mais denso cabe num espaço menor. A mesma dose de 500 mg pode caber folgada numa cápsula ou não caber de jeito nenhum, dependendo de como aquele pó se comporta.
| Tamanho da cápsula | Volume aproximado |
|---|---|
| 000 | 1,37 mL |
| 00 | 0,95 mL |
| 0 | 0,68 mL |
| 1 | 0,50 mL |
| 2 | 0,37 mL |
| 3 | 0,30 mL |
| 4 | 0,21 mL |
Quanto menor o número, maior a cápsula. A farmácia escolhe o tamanho conforme o volume total do pó de cada dose, que inclui o ativo e o excipiente, um pó inerte, escolhido para ser compatível com os ativos e usado para completar o espaço e garantir que todas as cápsulas fiquem iguais.
Motivo 1: cada lote de matéria-prima tem uma densidade
Matérias-primas são compradas em lotes, e cada lote pode ter densidade um pouco diferente. Isso depende do tamanho das partículas, da umidade, da forma como o pó foi seco e moído. Nos fitoterápicos, como extratos de plantas, essa variação é maior e esperada, porque a planta muda com o solo, o clima e a safra. Cor, cheiro e textura também podem variar de um lote para outro, dentro de limites de especificação conferidos pela farmácia no recebimento de cada lote.
Motivo 2: a pureza, ou teor, também varia por lote
Toda matéria-prima chega com um certificado de análise, que informa o teor: quanto daquele pó é de fato o ativo. As normas aceitam uma faixa de teor, e cada lote cai num ponto dessa faixa. Para que você receba a dose prescrita, a farmácia aplica um fator de correção e pesa um pouco mais quando o teor é menor.
Por exemplo, para entregar 100 mg de ativo, um lote com teor de 99% exige pesar cerca de 101 mg do pó; um lote com 98%, cerca de 102 mg. Nesse exemplo a diferença é pequena, mas em ativos com umidade alta, em formas de sal ou hidratadas (que exigem também um fator de equivalência) ou em extratos padronizados, a correção pode ser bem maior, e o volume final aumenta ou diminui junto. Às vezes é o que faz a dose passar de 1 para 2 cápsulas, ou voltar para 1.
Motivo 3: a escolha do tamanho da cápsula
Com o volume calculado, o farmacêutico escolhe a cápsula. Na maioria das vezes, a escolha é técnica: a menor cápsula em que a dose cabe com segurança, ou a divisão em mais cápsulas quando a dose não cabe numa só sem ficar grande demais para engolir. Com menos frequência, a farmácia pode optar por um tamanho diferente do usado antes, por exemplo para facilitar a deglutição. Em qualquer caso, o rótulo informa quantas cápsulas formam uma dose.
O que não muda: a dose que você toma
- A quantidade de cada ativo por dose continua a da prescrição.
- O que muda é como ela é dividida: 1 cápsula maior ou 2 menores, por exemplo.
- Cada preparação passa por controle de qualidade, incluindo a conferência do peso médio das cápsulas, exigida pelas boas práticas de manipulação da Anvisa (RDC 67/2007).
Como tomar quando a quantidade de cápsulas muda
- Leia o rótulo sempre que receber uma nova manipulação, mesmo que a fórmula seja a mesma de sempre.
- Se o rótulo diz 2 cápsulas por dose, a dose está nas 2 juntas. Tomar só 1 por hábito é tomar metade da dose.
- Se o rótulo passou de 2 para 1 cápsula, tomar 2 é dobrar a dose.
- Se a informação do rótulo não bater com a sua receita, ou se tiver qualquer dúvida, fale com a farmácia antes de começar.
Uma fórmula que muda de 1 para 2 cápsulas, ou o contrário, não é uma fórmula diferente. É a mesma dose, ajustada ao lote de matéria-prima daquele momento. O sinal de cuidado está justamente aí: a farmácia mede, corrige e adapta para que o que chega até você continue igual ao que foi prescrito.
Pergunta rápida
Se minha fórmula agora vem em 2 cápsulas, a dose aumentou?
Não. A dose de cada ativo continua a da prescrição. Ela só foi dividida em 2 cápsulas porque o pó daquele lote ocupa mais espaço.
Posso abrir a cápsula e juntar o pó numa só?
Não. Abrir as cápsulas pode causar perda de pó e expor o ativo, e algumas cápsulas têm função de proteção, como as gastrorresistentes, que protegem o ativo do ácido do estômago. Tome como está no rótulo e, se tiver dificuldade para engolir, peça orientação à farmácia.
A cor do pó mudou. É normal?
Em fitoterápicos e outros ativos de origem natural, a cor, o cheiro e a textura podem variar de um lote para outro. Se notar algo muito diferente, como umidade, cápsulas grudadas ou cheiro estranho, fale com a farmácia.
Por que a farmácia não usa sempre uma cápsula maior para caber tudo em uma?
Porque existe um limite de tamanho confortável para engolir. Quando a dose não cabe com segurança numa cápsula, é melhor dividir em duas.
Como sei quantas cápsulas tomar?
O rótulo de cada manipulação informa quantas cápsulas formam uma dose. Leia sempre que receber uma nova embalagem.
Referências (4)
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007. Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para Uso Humano em farmácias.
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Farmacopeia Brasileira, edição vigente.
- Ferreira AO. Guia Prático da Farmácia Magistral. 4ª ed. São Paulo: Pharmabooks; 2011.
- Allen LV Jr. The Art, Science, and Technology of Pharmaceutical Compounding. 6th ed. Washington: American Pharmacists Association; 2020.

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Conteúdo informativo produzido pela equipe farmacêutica da FarmaGalb, farmácia de manipulação em Hortolândia, sob responsabilidade técnica de Francisco Barbosa (CRF-SP 63.754). Não substitui a orientação do profissional de saúde que acompanha você.



