Duas pessoas tomam o mesmo remédio, na mesma dose. Uma melhora em poucos dias. A outra demora, sente mais efeitos colaterais ou quase não percebe diferença. Não é impressão: a resposta a um medicamento varia de pessoa para pessoa. Entender por que isso acontece ajuda a entender o que significa, de verdade, um medicamento pensado para você.
Por que existem doses padrão
Os medicamentos industrializados são produzidos em um número limitado de concentrações. Essas doses são definidas em estudos com grupos de pessoas e escolhidas para funcionar bem e com segurança na maioria delas. É um modelo que funciona e que torna o tratamento acessível. O ponto é que a maioria não é todo mundo: algumas pessoas podem precisar de uma dose intermediária que não existe na prateleira, ou de uma fórmula sem determinado componente.
O que faz o mesmo remédio agir diferente em você
- Idade: com o envelhecimento, rins e fígado tendem a eliminar alguns medicamentos mais devagar, e o efeito pode durar mais. Crianças também processam medicamentos de forma diferente dos adultos.
- Peso e composição corporal: algumas doses são calculadas por quilo, principalmente em crianças. A proporção de gordura e de músculo também muda como certos ativos se distribuem no corpo.
- Rins e fígado: são os principais responsáveis por eliminar os medicamentos. Quando funcionam menos, muitas doses precisam ser reduzidas.
- Genética: variações em enzimas que transformam os medicamentos no corpo (como as da família CYP, ou citocromo P450) fazem algumas pessoas processarem certos remédios muito rápido e outras muito devagar. É o campo da farmacogenética.
- Outros medicamentos: um remédio pode aumentar ou diminuir o efeito de outro. Quem toma vários ao mesmo tempo tem mais chance de interação.
- Alimentação e hábitos: o suco de toranja (grapefruit) aumenta o nível de vários medicamentos no sangue. O cigarro acelera a eliminação de alguns, e por isso quem para de fumar deve avisar o médico, porque o nível desses remédios pode subir. A levotiroxina costuma ser tomada em jejum porque a comida reduz a absorção.
Genética: exemplos reais
A farmacogenética já tem exemplos que aparecem em bulas e em alertas de agências reguladoras. A codeína é transformada em morfina pela enzima CYP2D6. Em quem tem essa enzima muito ativa, forma-se morfina demais, com risco de sonolência intensa e até de depressão respiratória. Em quem tem pouca atividade, o alívio da dor pode ser pequeno. O clopidogrel, usado para prevenir trombose, depende da enzima CYP2C19 para funcionar, e o efeito pode ser menor em quem tem pouca atividade dela. Já a dose da varfarina é influenciada por variações nos genes CYP2C9 e VKORC1.
Esses exemplos são de medicamentos industrializados e mostram que a genética influencia a resposta. Nesses casos, a conduta costuma ser trocar o medicamento ou ajustar a dose com exames e acompanhamento, e não necessariamente manipular. Quem interpreta os exames e decide a conduta é o prescritor. Testes farmacogenéticos existem, mas não são indicados para todo mundo nem para todo medicamento.
Dose a mais, dose a menos
Quando a dose está acima do que a pessoa precisa, aumenta o risco de efeitos colaterais e de interações. Quando está abaixo, o resultado pode demorar ou não aparecer. Nem sempre isso significa que o remédio está errado: pode ser a dose, o horário, o modo de tomar, uma interação ou simplesmente o tempo que aquele tratamento leva para agir. Por isso o acompanhamento com o prescritor e os ajustes ao longo do tratamento fazem parte do cuidado.
Onde a manipulação entra
A manipulação permite preparar exatamente a dose prescrita, inclusive doses intermediárias que não existem no mercado, associar ativos compatíveis em uma única dose, retirar componentes que a pessoa não tolera e escolher a forma mais fácil de usar. O ponto de partida é sempre a avaliação de quem prescreve, que conhece o paciente, os exames e o histórico.
Na farmácia, o farmacêutico confere a prescrição, avalia compatibilidade e interações e, se houver dúvida, fala com o prescritor. A fórmula é preparada seguindo as Boas Práticas de Manipulação. Explicamos esse passo a passo em "Por que personalizar seu medicamento".
Como ajudar seu tratamento a dar certo
- Conte ao prescritor e ao farmacêutico tudo o que você usa, inclusive suplementos, chás e fitoterápicos.
- Informe alergias, intolerâncias e se tem dificuldade para engolir.
- Avise o prescritor se o efeito demorar mais do que o esperado ou se aparecerem efeitos incômodos. Não mude a dose por conta própria.
- Siga o horário e o modo de tomar indicados, como em jejum ou junto com alimento.
Pergunta rápida
Por que o mesmo remédio funciona para uma pessoa e não para outra?
Porque idade, peso, função dos rins e do fígado, genética, outros medicamentos e até a alimentação mudam como o corpo absorve, transforma e elimina o medicamento.
Manipulado sempre funciona melhor que o industrializado?
Não. A vantagem da manipulação é poder ajustar dose, composição e forma quando o industrializado não atende. Quando existe um industrializado adequado, ele costuma ser a primeira opção. A decisão é do prescritor.
Preciso fazer teste genético antes de tomar remédio?
Na maioria dos casos, não. O teste farmacogenético é indicado em situações específicas e deve ser solicitado e interpretado pelo profissional de saúde que acompanha você.
A farmácia pode mudar a dose da minha receita?
Não. O farmacêutico prepara o que foi prescrito. Se identificar algum problema, entra em contato com o prescritor, que decide se ajusta.
Referências (9)
- U.S. Food and Drug Administration. Table of Pharmacogenetic Associations.
- U.S. Food and Drug Administration. Drug Safety Communications sobre codeína e metabolizadores ultrarrápidos de CYP2D6, 2013 e 2017.
- Crews KR, et al. Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium guideline for CYP2D6, OPRM1, and COMT genotypes and select opioid therapy. Clin Pharmacol Ther. 2021;110(4):888-896.
- Lee CR, et al. Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium guideline for CYP2C19 genotype and clopidogrel therapy: 2022 update. Clin Pharmacol Ther. 2022;112(5):959-967.
- Johnson JA, et al. Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium guideline for pharmacogenetics-guided warfarin dosing: 2017 update. Clin Pharmacol Ther. 2017;102(3):397-404.
- Mangoni AA, Jackson SH. Age-related changes in pharmacokinetics and pharmacodynamics: basic principles and practical applications. Br J Clin Pharmacol. 2004;57(1):6-14.
- Bailey DG, Dresser G, Arnold JMO. Grapefruit-medication interactions: forbidden fruit or avoidable consequences? CMAJ. 2013;185(4):309-16.
- Kroon LA. Drug interactions with smoking. Am J Health Syst Pharm. 2007;64(18):1917-21.
- Brasil. ANVISA. Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007.

Da teoria à prática
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Conteúdo informativo produzido pela equipe farmacêutica da FarmaGalb, farmácia de manipulação em Hortolândia, sob responsabilidade técnica de Francisco Barbosa (CRF-SP 63.754). Não substitui a orientação do profissional de saúde que acompanha você.


