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Fundamentos

Além das cápsulas: as formas farmacêuticas que a manipulação permite

FBFrancisco Barbosa
Farmacêutico responsável técnico, CRF-SP 63.754
· 3 de novembro de 2026· 5 min de leitura

A manipulação não se resume a cápsulas. Dependendo do ativo e da necessidade do paciente, a fórmula pode ser preparada como comprimido sublingual, goma, pirulito, solução oral, gel transdérmico, supositório e outras formas. O objetivo é facilitar o uso e ajudar o paciente a seguir o tratamento. Mas nem todo ativo pode ir para qualquer forma: antes, a farmácia precisa avaliar compatibilidade, estabilidade e absorção. E nem toda farmácia de manipulação produz todas essas formas.

Por que a forma farmacêutica importa

Usar o medicamento do jeito prescrito é parte do tratamento. Quem tem dificuldade de engolir, crianças, idosos e pessoas que tomam vários remédios por dia podem ter mais dificuldade de seguir o tratamento quando a forma não combina com a rotina. Uma forma mais adequada pode facilitar a adesão, desde que seja tecnicamente viável para aquele ativo e esteja de acordo com a prescrição.

Formas para tomar pela boca

  • Cápsulas: a forma mais comum. Podem ser de gelatina ou de origem vegetal e, em alguns casos, gastrorresistentes, quando há método validado para garantir essa proteção do ativo ou do estômago.
  • Solução, suspensão ou xarope: facilitam o uso por crianças e por quem não consegue engolir cápsulas, e permitem ajustar a dose em mililitros.
  • Sachês e pós para diluir: úteis quando a dose é grande demais para caber em poucas cápsulas.
  • Gomas: mastigáveis e com sabor, podem ajudar quem resiste a cápsulas. Comportam doses pequenas e nem todo ativo é estável nelas. Podem conter açúcar: avise se tiver diabetes ou outra restrição.
  • Pirulitos: usados principalmente em pediatria e em situações específicas, quando o ativo pode ser absorvido aos poucos na boca ou engolido com a saliva. Não são indicados para crianças muito pequenas, pelo risco de engasgo, e o uso deve ser supervisionado.
  • Pastilhas (trociscos) e filmes orodispersíveis: dissolvem devagar na boca ou se desfazem sobre a língua, conforme a forma, e servem para ação local na boca e garganta ou para quem tem dificuldade de engolir.
  • Comprimidos sublinguais e orodispersíveis: dissolvem sob a língua ou na boca. A via sublingual permite que alguns ativos sejam absorvidos direto pela mucosa, mas só funciona para ativos com as características certas, e parte da dose acaba sendo engolida. Siga a orientação de não mastigar e de não comer nem beber durante a dissolução.

Formas para uso na pele e em mucosas

  • Géis transdérmicos: aplicados na pele, permitem que alguns ativos cheguem à circulação. A dose costuma ser medida por aplicador. A absorção varia com o ativo, a base, o local e a área de aplicação. Lave as mãos depois de aplicar e evite contato da pele tratada com outras pessoas, principalmente crianças, porque alguns ativos, como hormônios, passam por contato.
  • Cremes, pomadas, loções e géis tópicos: para ação no local da aplicação, como na pele.
  • Xampus, loções capilares e esmaltes: para uso no couro cabeludo e nas unhas, conforme a prescrição.
  • Supositórios, óvulos e enemas: uma alternativa quando a via oral não é possível ou não é a mais adequada, e para tratamentos de ação local.
  • Sprays e soluções de uso local: podem ser usados em situações específicas, conforme a prescrição.

Por que nem todo ativo cabe em toda forma

Antes de preparar uma forma diferente, o farmacêutico avalia:

  • Compatibilidade: se o ativo reage com os outros componentes da forma, como bases, açúcares, gelificantes ou conservantes.
  • Estabilidade: se o ativo se mantém íntegro durante a validade naquela forma. Alguns se degradam com umidade, calor, luz ou pH.
  • Absorção pela via escolhida: um ativo bem absorvido no intestino pode não atravessar a pele ou a mucosa da boca.
  • Dose: algumas formas comportam pouca quantidade de ativo. Uma dose alta pode não caber numa goma ou num pirulito.
  • Sabor e tolerância: ativos muito amargos ou irritantes podem limitar formas como solução, goma ou sublingual.

Quando a forma pedida não é viável, o farmacêutico explica o motivo e conversa com o prescritor sobre alternativas. A troca da forma farmacêutica depende sempre da concordância de quem prescreveu, porque mudar a forma pode mudar a absorção e exigir outra dose.

Pergunta rápida

Qualquer remédio manipulado pode virar goma ou pirulito?

Não. Depende do ativo, da dose e da estabilidade. Doses altas e ativos sensíveis à umidade ou ao calor muitas vezes não são viáveis nessas formas.

Gel transdérmico funciona para qualquer ativo?

Não. A absorção pela pele varia com o ativo, a base, o local e a área de aplicação. Para alguns ativos, a quantidade que chega à circulação é insuficiente.

Posso pedir para trocar a cápsula por outra forma?

Pode perguntar à farmácia. O farmacêutico avalia se a troca é tecnicamente viável, e a mudança depende da concordância do prescritor, porque a nova forma pode exigir outra dose.

Sublingual age mais rápido?

Para alguns ativos, a absorção pela mucosa da boca pode ser mais rápida do que pela via oral comum. Mas isso não vale para todos, por isso a indicação depende do ativo e da prescrição.

Referências (4)
  1. Brasil. ANVISA. Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007. Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para Uso Humano em farmácias.
  2. Brasil. ANVISA. Farmacopeia Brasileira, 7ª edição, 2024.
  3. Brasil. ANVISA. Formulário Nacional da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição.
  4. Allen, L. V. The Art, Science, and Technology of Pharmaceutical Compounding. American Pharmacists Association.
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